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Especiais Literatura

As palavras atrás da porta

e a importância do dizer

05/07/2021 18h51
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Por: Carolinne Taveira

Eu abro a porta de maneira lenta, espreitando o que há do lado de fora, como que para observar, com curiosidade, o que há desse outro lado. Em minhas mãos carrego palavras, assim mesmo, expostas, e as entrego ao outro, as ofereço com o que há de forte e afetuoso dentro delas mesmas, dentro do lugar em que me formo como ser. As ofereço porque, no meu entender, costuro as minhas frases como bordados, como mantos, para que o outro também me escute de um lugar aquecido. Nem sempre consigo, mas tento. Vez ou outra deixo-me chover nas palavras e elas molham a minha garganta, e no lugar de se fazerem límpidas e audíveis, se perdem, em deslize. Ou as perco, em sobrecarga. A minha maior dificuldade não são as palavras expostas ao vento, oferecidas ao outro, são as que pululam dentro da minha cabeça e ruminam só para mim o que não consigo verbalizar.

Sou muito boa em decifrar códigos, mas não sou tão boa em fazê-los inteligíveis aos demais. Barthes, em “Aula”, afirma que a língua obriga o dizer. O falar exige ser dito, ainda que o dito seja silencioso, inaudível aos outros, ele, querendo ou não, sempre irá gritar para mim da maneira que conseguir. O dizer da mulher é ainda mais dificultoso de ser dito e lido como válido, de ser escutado e compreendido, visto que crescemos ouvindo que deveríamos nos silenciar diante de atrocidades, diante do que nos machuca a alma e o corpo, diante da dor, da morte, diante da vida. O nosso dizer permanece costurado na pele, e sangra. Quem escuta? Escutamo-nos? Escuto a mim e me compreendo antes de ouvir o outro e buscar compreendê-lo? Porque se não me escuto, talvez não dê margem para o outro se fazer escutado tampouco.

Exijo o lugar em que me comprometo com o dizer, ainda que torto, ainda que nebuloso, ainda que turvo o suficiente para não ser compreendido pelo outro, exijo esse lugar em que a minha fala exista. Ainda que não consiga concretizá-la e ela permaneça presa, atrás de uma porta, tomando chuva e ouvindo o silêncio dos trovões. Acho que é de muita coragem o dizer quando vinculado com a nossa mais profunda sensibilidade, quando vinculado com a vulnerabilidade do que nos é próprio e verdadeiro. Entrego as minhas palavras expostas no desejo de ser lida e ouvida, porque sempre há muito o que se dizer. E também porque o silêncio deixa-se interpretar pelos demais como sendo qualquer coisa. E é perigoso se deixar ser compreendida no silêncio, porque qualquer coisa é muito e também é capaz de fazer abalar uma estrutura de carne, ossos, lágrimas, sangue, água. E porque também o outro é composto por inúmeros atravessamentos e por isso mesmo a minha fala, ainda que venha de mim, pode ser interpretada com outros olhos, a partir de infinitas perspectivas. Exijo esse lugar de fala porque as que vieram antes de mim não tiveram o direito de desenharem, através da voz, o que sentiam/acreditavam/viviam. Porque a vida é mesmo muito curta para silenciar e deixar-se ser silenciada. Porque me encanta o som da voz, da minha voz, da sua voz. Porque estabeleço uma ponte capaz de me fazer atravessar o que temo e o que amo em direção ao que você teme, ao que você ama. Porque compreendo melhor a mim nas palavras, através da porta que abro cuidadosamente e, por vezes, desesperadamente. Porque sou humana-mulher. Porque assim compreendo o que você diz e nos entendemos (ou não) dentro do nosso tempo-espaço. Compreendes agora a minha urgência e o meu desejo de me refazer na travessia? Porque a minha fala será atravessada também pela sua existência e pela maneira que as suas palavras, os seus desejos e ideais existem de você para mim. Porque, por vezes, temo o não dito muito mais do que o dizer e sei que marcarei passagem através do dito, mas, antes de fazê-lo, eu me recolho atrás da porta e me escuto em silêncio. 

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Possui Mestrado em Literatura e Interculturalidade, pela UEPB (2021) e graduação em Letras - Língua Portuguesa, pela UEPB (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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