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Especiais Literatura

Uma mulher

e as 395.324 flores

28/04/2021 11h43
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Por: Carolinne Taveira

Do alto, do cume de um monte, uma mulher já velha está sentada sobre uma pedra, descansando da subida. Um nevoeiro paira sobre o espaço aberto, mas é possível enxergar um rastro de luz que se apresenta num horizonte longínquo. Passadas algumas horas, o nevoeiro dissipa-se. A mulher olha para o chão e percebe a distância trilhada e pergunta-se como chegou ali, se já não havia mais forças, se já não lhe restava forças. Deixa-se quedar por uns instantes até perceber pequeninas cores amontoadas a dançarem com o vento. Eram flores de todos os tipos e tamanhos. Flores de todas as cores e cheiros. Flores com nomes e histórias. Flores que se alastravam por toda planície e começavam a empilhar-se uma a uma, uma sobre a outra, tamanha a quantidade. Já recuperada do esforço e do cansaço, a mulher questiona-se se conseguiria descer o cume, devido à idade e ao perigo do caminho desconhecido. Por um tempo, resignada e incrédula, deixou-se olhar as flores avolumarem-se, pois cresciam como nunca havia visto. E, antes mesmo de mover-se em direção ao chão, percebeu a figura de um homem pequeno a pisar nas flores. E ele ria e ria enquanto pisava nelas. A mulher, antes resignada e preocupada com o caminho, desceu em fúria e coragem, pois queria olhar a face daquele homem pequeno e interromper o que ele estava fazendo. Ao passo que a mulher se aproximava, mais percebia a pequenez daquele homem que ria descontroladamente. Quando já estava perto dele, perguntou-lhe o que estava fazendo, pois não via que eram flores e que elas precisavam viver? E o homem ria tanto que não respondia e pisava ainda mais nas flores. Ainda que não pudesse fazer algo sozinha, a mulher não se deixou intimidar pela violência do homem pequeno e começou a empurrá-lo a pontapés, e ainda assim ele ria e ainda assim ele pisava nas flores e as arrancava. Já sem forças, a mulher, já velha, deixou-se sentar no chão, exausta, depois de conseguir salvar uma grande quantidade de flores, até se tornar uma. E era uma em, naquele instante, 395.324 flores. Que a cada dia aumentavam, cada uma com nome e com uma história que não deixa de Ser, ainda que não mais exista.

Enquanto o rastro de luz broxuleava no horizonte, as flores aumentavam, o homem ria e ria e continuava arrancando e pisando em cada uma das flores.

E a luz perguntava: até quando?

 

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Possui Mestrado em Literatura e Interculturalidade, pela UEPB (2021) e graduação em Letras - Língua Portuguesa, pela UEPB (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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