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Especiais Literatura

Quem sou eu?

E quem és tu?

16/01/2021 14h42
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Por: Carolinne Taveira

(Tomo emprestado a característica de Caio Fernando Abreu em colocar epígrafes em seus textos e digo: Para ouvir ao som de Yann Tiersen. Para acalmar o coração em dias sombrios).

Há uma canção em “EUSA”, de Yann Tiersen, chamada “Yuzin”. “Yuzin” é uma palavra da língua turcomana que significa “rosto”.  Rosto. Yuzin. Não há uma voz sequer na canção que leva o rosto à frente, à mostra, abrindo caminhos ao desconhecido. A melodia repete-se em uma constante, até encontrar algo distinto, até ir de encontro a si, para culminar num fim paradoxalmente infinito. Mas que é um rosto? O que é o rosto que traça a sua própria melodia?

 Matilde Campilho, em uma entrevista ao Sangue Latino, diz algo como: “[...] eu própria posso ter medo do silêncio como a gente tem medo às vezes de olhar no espelho. O espelho é o maior dos silêncios. Sou eu e eu. E agora?”. Aqui, não há o outro diante de quem acredito ser. Há um rosto que é meu, que sou eu. Mas o que incomoda no silêncio diante de si, diante desse rosto que é meu? Incomoda encarar o medo de sentir e de se responsabilizar por aquilo que se é? E o que é o meu rosto, meu Deus? Na extensão do tempo, já não sou quem eu era a um minuto atrás, Alice[1] já nos disse isso. E, segundo ela, definir-se quem se é, é uma grande charada. Acredito que está certa. Muda-se a todo instante, mas nosso rosto acompanha-nos de perto, e nos espreita e exige o olhar cirúrgico, porém cuidadoso, de mãos e alma gentis.

Diante de um espelho há essa que me olha. Sou quem eu penso ser? E o que sinto? E como sinto? E o que faço daquilo que sinto? Se me desabro é para ler o intraduzível, e também o que me custa traduzir. Se a minha língua é, muitas vezes, serva da incompreensão, é meu trabalho traduzi-la e fazê-la apta a meu entendimento, e depois, ao teu entendimento. Se não me disponho a olhar o meu rosto, não saberei como é o teu. Assim, é difícil reconhecer um rosto e o que tem um rosto quando não se olha para ele.

Não me interessa o que tens, não me interessa. Conta-me antes a idade que tinhas quando caiu o teu primeiro dente. Conta-me qual lembrança não te escapa das mãos, em que abraço tu dormes sem dormir, quais os teus sonhos, os teus medos. Interessa-me tua fala de dentro, o teu silêncio, a maneira como uma mão repousa na perna, já cansada de expressar-se sem voz. Conta-me quando descobristes que tens voz e de quando aprendestes a falar, mesmo depois de anos pronunciando o comunicável. Quero ouvir o incomunicável, o que custa sair. Mostra-me o que carrega o teu rosto, mostrarei o que carrega o meu, embora muitas vezes desconheça o que carrega. Conta-me o que é estar diante de si verdadeiramente. Interessa-me a ligação como as redes neurais que têm as águas-vivas, a tua energia que te antecede ao encontro. 

Consigo imaginar os traçados e os desenhos do teu rosto que dançam em concomitância ao que sentes. Sigo a ouvir a canção, a música em repetição, em uma insistência muda de “espera”! No final, numa melodia única, salta-me à mente a alusão de alguém diante das águas. Será o mar? Ou confundo com som do vento a sacudir árvores? Ou é apenas a minha compreensão do fim? Intransponível. As marcas de um tempo me dirão de mim e também dirão de ti e se nos apetecer o ouvido, conheceremos as marcas únicas, plurais e ainda assim repetidas e invariáveis. Fim paradoxalmente infinito. Assim é um rosto. O fim diante de si, mas as possibilidades infinitas de servir à vida. Não entendo de música, não sou especialista em musicalidade, tampouco em decifrar rostos, mas sei que daí emergem as marcas agressivas do tempo, mas que se revelam numa delicadeza contraditória.

Tu também és o meu espelho. Aí está o silêncio. Aí também reside o medo, mas também a força. Em tudo há lacunas prontas para serem preenchidas pelas ondas do mar. Assim é a vida. E ainda que me contes de ti, ainda assim não saberei quem tu és, mas ao menos saberei um pouquinho que seja sobre quem fostes e quem estás construindo. E ainda que nada saiba a teu respeito, sei que és alguém e que tens um rosto.

{a todos os rostos desse planeta, a minha humilde e pequenina homenagem, diante de imensidões que jamais conhecerei por completo}.


[1] Em referência à Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. 

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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