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Especiais Literatura

A lembrança

é peixe que escapa

24/11/2020 16h45
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Por: Carolinne Taveira

Para Dona Maria (In memoriam) 

Puxava com cuidado o que havia de ser puxado. Afastava os fios do cabelo com cuidado, e num movimento de pinça, içava da cabeça uma duas três palavras-lembranças. A mãe dizia desde muito cedo que não era desse jeito que ia tirar memória de dentro. Mas gostava de inventar jeito, pois então sentava-se no banquinho, na beirada da porta do quintal e ia caçar pensamento com os dedos. Parecia dia de pesca. Algumas palavras, como os peixes, escapavam dos seus dedos, como aqueles escapam da isca e do anzol. Acostumou-se a perder para si, mas gostava assim: acostumou-se também a guardar o que havia de ser guardado. Noutras vezes as lembranças pulavam para os seus dedos, como se quisessem encontrar alento entre eles. Com essas, fazia questão de deixar onde estavam. Acariciava-as devagar, perguntava o que lhes poderia ser feito. Eram sempre muito agitadas e barulhentas, incapazes de dizer o que sentiam. As palavras lhes fugiam, não adiantava o esforço do dizer. Algumas lembranças saíam durante o banho, misturavam-se nas águas e, feito correnteza, desciam inteiras pelo seu corpo, ainda que fragmentos de seus restos permanecessem entre um espaço e outro. Se se pensasse com cuidado haveria de lembrar o vivido e perpetuá-lo em repetição sempre? Que angustia não encontrar certezas na vida. Havia lembranças que gostava de guardar em lugares longínquos. Esses lugares que vamos uma ou duas vezes num ciclo de vida e visitamos como se estivéssemos observando o todo pela primeira vez. Se dobrar ao olhar é exercício direito e difícil. Se sai torto, é em razão de quem olha. E ocasionalmente lembrava desses poucos lugares distantes para depois esquecê-los, logo mais. Logo mais lembrar de voltar. O caminho de volta também necessita de ser construído. Certo que há rastros, mas a estrada é esburacada – quando se há ainda estrada. Se houver ruína, encontrar nos escombros a natureza a mostrar-se como possibilidade de ser estrada. E esquecer de voltar e lembrar de seguir. Mas basta uma piscadela, um encontro rápido perdido, um espelho, a lembrança fugaz escapa, como que por necessidade. Quando uma palavra foge, busca-a ligeira e quase sempre consegue capturá-la, mas ela também se esvai. Nem carta, nem frase, nenhum texto. Transpunha a lembrança inteiriça para o papel, há de ser assim que se guarda melhor o que há de ser guardado? Quando crescida, o banquinho perto da porta do quintal se achava guardado, era lembrança. Essa não pescava, deixava solta feito criança de pés descalços sujos de terra e feridas nos joelhos – ainda o chão a ferir, não a vida. Foi aprendendo a deixar as lembranças soltas. Noutros momentos não as suportava e precisava capturar uma a uma. Mas eram muitas e fugiam e riam de seus dedos apressados e desejosos. Acalmava-se quando, sentada já ao chão, chorava. Depois do choro e do chão, olhava para a lembrança e não mais a reconhecia tinha vezes. Tinha vezes que o olho mudava a compreensão e parecia ser outra coisa formulada. Quando cansada de tanto olhar, tentava dormir, mas impossível, as lembranças mantinham-na acordada e pulavam dentro. De tanto olhar para dentro do centro da lembrança, cansava-se dela. Já não queria vê-la por muito e despejava-a, quando enfim conseguia, alheia. Mas sabia: ainda que dissociada de si, ainda fazia parte de quem era. Muito não se reconhecia em outros lugares-memória. Olhando, parecia ser outra. As lembranças não se assimilavam tal como foram, tal como eram. As mudanças são muitas e até ela desconfiava de si e das articulações que a memória encontrava para permanecer intacta intocável. Agora já velha, a mãe encontra-se num desses lugares longínquos e difíceis de acessar – não por querer, mas por consequência dos caminhos. Estreitando os pensamentos, cansa-se. E não é de certo que se constrói lembrança vivendo? Mas não é disso que se fala. Já não iça as lembranças com os dedos. Antes empurra-as para outros lugares, muitos lugares, do lado de dentro. Das lembranças que gostaria de esquecer, aprendeu a deixá-las soltas. Com o tempo, saíam livres de desgosto. O pensamento maior mesmo, o que ficava a lhe atormentar a cabeça, os fios acinzentados, era pensar aquilo que se viveu: como reconstruir? Como recuperar o tempo da memória e não a deixar ir de vez? Pois é certo que notou outro dia uma das lembranças saindo de dentro dela silenciosamente. Desconhecida e silenciosa, olhou-a ainda nos olhos, mas não havia mais nada ali. Era para ter agarrado a lembrança, apertado contra si, pedido: fica. Mas deixou-a ir, já não havia mais nada ali. De tanto pesarem, foram indo uma a uma. Outras ficaram a fim de lhes fazer companhia, por compaixão e também amor. Sabiam elas que poderiam servir de alegria, em algum dia de ausências. Repetidamente, acariciava uma mão na outra. Os polegares a tocarem-se. Ocasionalmente, um flash, um deslumbramento, uma lembrança rompia-lhe o tempo, parava-lhe as horas e eram segundos de vida em que as mãos se uniam em pinça. Já não pescava como antigamente, sequer sabia manusear os dedos fracos e frágeis. Mas a lembrança, o flash. Mas o deslumbramento, o romper. Passou. Passou. A vida é de se assobiar nos intervalos das lembranças? Ou é rio contínuo que se deságua para outro tempo.

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Possui Mestrado em Literatura e Interculturalidade, pela UEPB (2021) e graduação em Letras - Língua Portuguesa, pela UEPB (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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