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Especiais Literatura

Do outro lado do rio,

a palavra

24/09/2020 09h26
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Por: Carolinne Taveira

Fui interceptada. No meio da travessia havia uma barreira de uma altura que se chegava ao céu e, antes de me ater ao sofrimento da barreira posta, admirei a sua estrutura e a maneira como tocava o abismo. Não me apercebi da ausência de voz, estava já muda diante de tamanho esplendor. Tanto, que além de não perceber a mudez, também não percebia a barreira, ela mesma, diante de mim, como sendo barreira. E foi com custo e um cuidado de dedos postos na muralha que pude balbuciar algumas curtas palavras. Cuspia-as com uma força que não era minha, que meu corpo não era de ser capaz. Mas é, mas foi. De que adiantava as palavras para um destino vazio e despercebido de mim? Eu me questionava. De quê? De que riso o riso é feito? De que de palavra a palavra é feita? Eu me questionava enquanto ali parada, em um barquinho de papel. Ainda assim, cuspia-as todas, uma por uma. Ao vento, que as levou de mim, agradeci. Gostaria de que as palavras se impregnassem na altura maior da barreira, a fim de condensarem-se, unidas, como um atestado de resistência, como um anúncio de que ali estava alguém. Mas para a minha surpresa, iam-se alhures. No meio da travessia estava eu, impossibilitada de seguir viagem, mas as minhas palavras seguiam por mim. Permaneci ali por tanto tempo que reconhecia já os horários e os tipos específicos de luzes, reconhecia o movimento das águas, reconhecia com antecedência a chuva e já não havia como proteger-se da modificação corpórea causada pela natureza. A tudo o corpo habitua-se. Será? Buscava vestígios de fuga. Não havia furos na barreira, mas havia margens. Era onde eu estava. Não havia de atravessar o rio a nado, pois não ia? O barquinho de papel afundava dia por dia. Guardei as palavras comigo, ingressei no pulo, o outro lado. Todas as minhas palavras do outro lado, todas elas alcançando o céu. Aí não aguentei. Sentei na margem para chorar, elas se achegaram junto a mim, acariciaram-me a cabeça, fizeram silêncio. A barreira permanecia, eu não. Eu já me ia.

 A minha palavra é tudo que tenho. É a minha única verdade.

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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