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Especiais Literatura

Uma palavra muda enlaçada ao vento,

um corpo diante de mim

07/08/2020 12h02
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Por: Carolinne Taveira

Sento-me diante de mim. A menina esguia de medo nos olhos. Peço para que me olhe com cuidado. A cadeira está bamba, reparo. Se caio, ela, diante de mim, também cairá. Ajusto a cadeira, peço que me escute, mas me estendo em silêncios compridos, de metros e metros, o silêncio. Com a boca salivando de medo, com a boca serrada de medo. Ela me olha a espera, me olha a espreita de uma palavra qualquer. Não sai de mim uma palavra, mas choro. E choro compulsivamente diante de mim, essa outra. Choro até meus olhos embaçarem a vista. Choro até sentir o corpo ameno e expurgado. Ela me olha só. Sentirá dó? Sentirá? Da janela, adiante, desbrava-se o tempo. Mas ali, não. O tempo não corria comigo diante de mim, o tempo deitou-se no chão a espera de minhas palavras. A ampulheta infinita, a eternidade que se estende agora. Não envelheço aqui, então? Envelheço. Mas o eu diante de mim, não. Procuro vestígios do tempo em suas mãos, seus olhos, - ela a me olhar calma - mas procuro em vão. Não há tempo no eu diante de mim, há antes, desejo. Observo-a imóvel, sentada em uma cadeira de plástico, sem que lhe roubem a vida a cada milésimo de segundo. O instante a ir-se. Dou por mim de olhos secos, a minha mão a pousar uma na outra. O peito arfando já calmo. É quando ela me solta uma palavra rápida, que se vai enlaçada ao vento. Uma nuvem a capta, ô Deus, perdia-a. Perdi a palavra, perdi de segurá-la e abraçá-la e entendê-la inteiramente só. O eu diante de mim, mais corajosa que eu, causa-me um sorriso de dentes à mostra. Ela compreende a linguagem do meu coração e me sorri de volta. E chora. Entre um sorriso que escapa da sua boca, ela chora e já não me olha nos olhos, pois não gosta de ser vista assim. Sabiá de canto manso, de olhar perdido, canta para mim. Cuidadosa, o coração nas mãos, entrega-me a vida. E chora. Uma palavra me escapa da boca, entrelaça-se a ela, distante de mim. A palavra que me sai é muda.

Sentada à minha frente, vejo-me só, veja você. Com medo nos olhos, com palavras a escaparem-me da boca, com o tempo que ocorre dentro, com a palavra muda que se abraça e me faz querer ver. Como o menino em Galeano, pedindo para seu pai lhe ajudar a ver o mar que estava a sua frente. Olho para o eu que está diante de mim, e peço, "por favor, ajuda-me a olhar". 

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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