Terça, 27 de Outubro de 2020 06:17
83 986952059
Especiais Literatura

Quando eu me for

de mim

06/07/2020 11h19
245
Por: Carolinne Taveira

Quando me for de mim, quem encontrarei? Gostaria de encontrar crianças a brincarem de subir em árvores, contar ausências, correr atrás de ausências, sabendo que tudo é brincadeira e não há razão para chorar. Contarei o tempo nos dedos, lembrando de Saturno. Levarei minha gata comigo? Gostaria de me ater às mãos dos pequeninos e dançar uma ciranda sem jeito e sem saber dançar. Iria rir dos meus passos e iria prestar atenção ao que me falariam. Contar-lhes-ia histórias outras, de uns tempos imaginários e cheios de cheiros do passado. Gostaria de aprender outros jeitos de sorrir e de ser gente, sem esconder o meu jeito de chorar pelo que me dói o corpo e o espírito. Se me perguntassem o porquê, responder-lhes-ia com a verdade marcada à pele, sem medo, sem nenhum medo. Ficaria muito tempo em silêncio aprendendo a ouvir outros silêncios. Perguntar-lhes-ia sobre tudo também, cheia de porquês e porquês, sem nunca, talvez, encontrar respostas. Não fará mal não encontrar respostas, iria mesmo me incomodar com a ausência de perguntas. Será que será possível tocar o céu? Andar sobre as nuvens, desenhar formas, fazer com que os que as assistem, adivinhem se são coelhos, ursos, tartarugas, girafas, uma flor. Não sei se isso tudo será possível, mas gosto de pensar que sim. Mas a natureza, ela própria, é. Não carece de ninguém ou nada para fazer manifestar coisas outras. Mas vim dela, sou parte dela, sou movida por ela. Pelo menos, eu gosto de pensar assim e isso me ajuda a dormir, me ajuda a seguir. Gostaria muito de encontrar pessoas que não conheço, mas que, de alguma forma, conheço em sonho, em estados não conscientes, não despertos. Será que sentimos saudades de quem não conhecemos conscientemente? Não o sei... acredito que a saudade também mora em nós porque não somos daqui e queremos sempre voltar, mas não há volta, não há nunca uma volta. O que há é isso aqui, mas gostaria de me balançar na lembrança de ser humano-criança e brincar de existir sem me ater a preocupações desnecessárias. Me esconder por detrás de uma letra, uma melodia, e ficar escondida e me encontrar ali. Mas também me perder, andando. Muitas vezes me perdi, mas gostava de me desencontrar, ganhando a oportunidade de conhecer o que não conhecia e pisar o chão que não havia pisado até então. Não careceria de sentar e dizer “estou perdida”, mas enxergar a possibilidade outra de encontrar seja lá o que, seja lá a quem. A minha gata talvez gostasse de ficar só comigo e eu gostaria de que ela gostasse também de ficar a sós consigo. Ensino-lhes, quando posso, sobre ausências. Não sei se ela me compreende, mas demonstra carinho quando me vê. Bastava também que, por onde eu me for, deixar carinhos, mas talvez eu não consiga muitas vezes. Então, talvez seja melhor apenas passar por onde for, pois meu corpo terá passado, meu corpo terá ficado ali, ainda que um segundo, ainda que uma vida inteira. E, as vezes, uma vida inteira é apenas parte dela – um minuto, um mês, um ano, dois dias. Ficarei feliz de ter passado e de talvez dançar de mãos dadas com crianças, a ouvir histórias, a contar histórias, a ouvir silêncios, a ser silêncio. Tenho muito que me curvar ao que me é alheio, não por querer demonstrar benevolência ou uma falsa humildade, mas porque talvez assim eu compreenda como é estar diante do outro, respeitando-o, respeitando-me. Meus joelhos estão já cansados aos 26 anos de terra, mas forço-os, pois ainda há dança e gostaria de aprender a dançar, a dar as mãos, a ser ciranda.

{Quem estarei sendo quando me for de mim? Como passarei a entender os meus medos, as minhas inseguranças? Como irei ouvi-los? De que maneira abraçarei as causas? E as plantas, como ficarão? E o final da tarde, sentada nos batentes de minha casa? E o desenvolver da vida, os seus ciclos? O que farei do meu coração? Tudo isso e mais um pouco, eu me pergunto. Estou cheia de perguntas e de partidas, de desencontros, mas aberta às mãos que querem ser seguradas e aos silêncios que querem ser, e à dança.

Estou sempre aberta a dançar e que eu seja e esteja comigo, antes de ser e estar consigo, quando eu me for de mim}.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Anúncio
Fagundes - PB
Atualizado às 05h59 - Fonte: Climatempo
22°
Poucas nuvens

Mín. 22° Máx. 31°

22° Sensação
20.8 km/h Vento
79.3% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (28/10)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 20° Máx. 30°

Sol com algumas nuvens
Quinta (29/10)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 20° Máx. 30°

Sol com algumas nuvens
Anúncio
Anúncio
Anúncio
Anúncio
Ele1 - Criar site de notícias