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Especiais Literatura

O caso do pássaro

com a asa machucada

16/06/2020 10h48
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Por: Carolinne Taveira

Atirou-me na asa esquerda. Uma pedrinha certeira atingiu bem do meu lado esquerdo, na ponta. Antes de cair, pensei em olhar na direção de onde vinha a pedra, mas senti mais medo. O que eu poderia fazer com a imagem daquele que me machucou? A minha mãe diz sempre: se atingido, tenta cair o mais longe de quem te feriu. Segui seu conselho. A queda foi um estrago, achei que iria morrer, pois o sangue, a ferida, a pedrinha. Fingi-me de morto, pois estava quase e queria afastar o atirador. Dali, no chão, achei-me incapaz de voar novamente, pois a asa machucada e o medo de ser novamente atingido. Mas minha mãe me ensinou: descansa o corpo quando machucado, só depois retoma o voo, e assim o fiz. Reparei que não havia mais vozes por perto, mas para me certificar, levantei minha cabeça e constatei a ausência. Havia eu apenas e mais adiante, uma árvore. Arrastei-me até lá e logo outros pássaros vieram se ater comigo, preocupados e afoitos. Todos muito afoitos e barulhentos, mas preocupados. Agradeci a gentileza. Pedi por ervas e folhas novinhas. Pus-me a cuidar do ferimento e demorou tanto até criar uma cicatriz. Tanto! Às vezes via os outros voarem para o longe e eu gostava tanto de voar, mas a asa. Quando então me apercebi do chão, a me aparar o corpo, chorei, um choro assim, só meu. O céu me despontava, o chão me nutria e me cuidava. Minha mãe costuma dizer: valoriza onde estás. Eu esqueço, peço desculpas, pois. O esquecimento é arrimo de família ou só uma desculpa, um motivo para não arcar com o que faço, ainda que sem perceber. Sigo o conselho de minha mãe. A ferida começou a ganhar uma crosta, mas ainda iria demorar para as penas voltarem a crescer, eu sabia. Quando criança, miudinho, eu tinha medo da dor do crescimento e a minha mãe costurava fios de lã, como chamava, para me fazer aninhar-se perto dela, para que o medo sumisse e a dor, ainda que viesse, não fosse tão forte como eu imaginava. Já quase recuperado, me punha de pé, a dar saltos de felicidade, pois além do chão, também podia explorar o céu, mas ainda havia tempo e eu havia de cultivar a paciência. Fiz amizade com outros pássaros, a árvore, os bichinhos que passavam por perto. Eu contava-lhes minha história, eles contavam as deles. Eu escutava sempre e, às vezes, lhes cantava baixinho e eles ficavam um pouco emocionados, pois ninguém nunca havia lhes cantado canções. Eu me comovia com o choro alheio e embargava a voz, o canto. Tive tempo para aprender sobre ferimentos, ervas, cantos e também a fazer amigos, pois que, longe, ainda que no céu, ficamos muito sozinhos. Minha mãe diz: volta sempre. Houve dias em que demorava e demorava para voltar, mas sempre voltava de peito aberto, sorrisos e voz em canto. Achava que iria me repreender, mas em vez disso, ela ouvia meus sorrisos e cantoria em silêncio e, quando eu voltava a partir, dizia-me: volta sempre e bem. A asa em cura, nas primeiras tentativas, falhou no voo. Caí inúmeras vezes e chorava, achando de não mais conseguir. Eu continuei tentando, embora a dor. Ainda a dor. Era preciso esforço e dedicação, mas também era preciso descanso. A mistura de ervas, as folhas em comunhão, a curar a ferida. Quando enfim alcancei voo, passei a voltar sempre à árvore e ao chão, como forma de agradecimento, como para me lembrar e para fazê-los lembrar da importância que têm para mim. Minha mãe diz sempre: atesta e exerce o teu amor, aonde quer que vás, com quem quer que seja. Ainda que ferido, atesta e exerce sempre o teu amor. Para aquele que te machuca, o agradecimento pelo aprendizado da dor e de te conceber outras perspectivas da vida. O chão é também palco de cura. Lembra que também podes ser aquele que fere. Evita sempre, a minha mãe diz. Para aquele que te ajuda, o agradecimento, a lembrança e a ação de amar. Acho difícil fazer tudo isso, eu digo para minha mãe, mas ela costuma dizer sempre: tenta, já é muito.

Desponto o céu, a celebrar a existência do chão. A asa em formação, a cicatriz.

{Essa que vos fala ama pássaros e gostaria de ser um}. 

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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