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Especiais Literatura

Despedi-me do mar,

mas o mar ficou em mim

26/05/2020 10h33
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Por: Carolinne Taveira

Noutro dia sonhei com o mar. Levava meu corpo até a margem das águas, as ondas a quebrarem fracas nos meus pés, as ondas a quererem levar-me lavar-me. Havia eu e eu, diante do todo. Pensei, “dai-me permissão, ó mãe”. Queria adentrar as águas, pular as ondas e veja, no meu sonho, talvez nem fosse final de ano. Ainda assim, pensei fortemente em um pedido. Entrei no mar com medo de mim, com medo da imensidão. Pensei “não me deixa ir, deixa eu ficar mais um pouquinho, daqui a pouco faz frio, daqui a pouco tudo isso deixará de ser... me deixa ficar mais um pouquinho”. Parece que a deusa-mãe ouviu meu pedido, parece que ela me lançou ondas e meu pensamento inundou de um corpo. Era essa a lembrança, vê. Um corpo descansando em meu pensamento. Um rosto, um cheiro, um gosto. Eu fiquei em mais silêncio, pois gosto assim e as ondas quebravam em mim, quando após, como se para lembrar: respira, porque há vida. Ouvi “pensa no que te traz felicidade” e eu, confusa, tantas coisas me trazem felicidade, veja só. Ainda bem. Minha cabeça comporta inúmeras imagens e todas elas, nesse momento, aglomeraram-se num abraço, num rebuliço, uma mistura, como pedidos de virada de ano, como aquele instante que é só ele e mais nada, porque depois deixa de ser e depois não tem mais graça de pensar a respeito e depois é tarde demais.
O medo atiçava o meu desejo de coragem. Dizia-me, quando criança miúda, “você tem coragem”, mas era mentira, eu corria de medo e escondia-me por detrás da porta, depois saía ilesa, mas desprovida de acontecimentos tumultuosos. Era o que eu podia me oferecer, parecia seguro. Agora acuso-me de corajosa, mas em contínuo esforço e dedicação. É o que posso me oferecer. Se muito me descuido dos pensamentos, eles parecem me arrastar para o olho de um furacão ilusório e quase deixo-me ser arrastada. A coragem me ancora na incerteza e me sustento no pensamento ilusório como sendo o próprio furacão.
Enquanto tomava conhecimento do que pensava, olhava a linha do horizonte a espera de algo a surgir e a me segurar pela mão. Mas nada veio do horizonte, antes veio uma outra onda a me lembrar que não existia tempo, e eu parecia viver a minha eternidade banhada pelas águas da deusa-mãe. Às vezes me ocorria a vontade de chorar, o meu corpo curvava-se involuntariamente, e eu quase ensaiava um canto, mas a voz. Uma melodia aquática embalava a minha vontade de. Não me atrevi a pedir nada, antes balancei meus braços a sentir a água do mar e o mar e a areia do mar como nunca antes. Rodopiei em dança silenciosa. E cogitei de ser sonho o vivido, e se sonho era, a imaginação despontava. Criei asas costuradas, bordadas, assobiava canção maior, bati as asas desajeitada, agitei as águas do meu lugar, depois, aquietei-me, pois. Em dada hora, quando a luz deixava-se ir, meu corpo ansiava pelo nada. Agradeci a permissão de entrada e antes de me retirar das águas, agucei o sentido, a percepção. O corpo, rosto, cheiro, gosto, em meu pensamento, dissolviam-se e impregnavam o pensamento meu, configurando-se como num conjunto indissociável. Já não parecia viver distâncias, pois era em todo as fagulhas de outras vidas. Não é que a luz deixava-se ir, era que meu corpo encontrava-se do lado oposto da luz. Aí acreditei ouvir uma voz a dizer “se querias tanto ficar, para onde vais agora?”. Eu respondi sorrindo, em despedida, com as palavras portuguesas de Sophia de Mello Breyner Andresen, “espera-me: pois que mais longos sejam os caminhos
Eu regresso”. 
E saí do mar, mas o mar ficou em mim.

 

 

 

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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