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Especiais Literatura

Abraçar o vazio

e o seu paradoxo

04/05/2020 11h31
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Por: Carolinne Taveira

Lembro do trecho em que Maggie Nelson, em Argonautas (2017), cita Anne Carson e fala sobre as respostas desta, sem palavras, apenas colchetes vazios [[]], e questiona-se sobre o porquê da ausência. Lembra do bonsai que, geralmente, não é plantado no centro do vaso, pois é a partir do centro, do meio oco, vazio, que a pulsão de vida de manifesta, é o lugar destinado para o preenchimento do que é divino. É preciso, pois, deixar o centro vazio, não preenchido, foi o que Carson respondeu ao falar sobre o significado dos colchetes. A ausência de palavras e a utilização do vazio como forma simbólica de construção da vida. Há certos vazios maiores que outros. O menino que carregava água na peneira, Manoel de Barros. Os espaços entre as palavras e as letras, e a impossibilidade de ser preenchido pelo que já não é e talvez nunca tenha sido. Os olhos de quem deita em meu peito, encharcados de outrora, que nada me dizem em voz e recebo o silêncio, o reverencio. Molha o meu peito e diz “não é nada”, “é coisa de criança que chora por medo de ser atingido pelo desconhecido”. O porquê do medo de ser criança e de chorar, é, pois, a vulnerabilidade de ser humano diante de si e do outro. O consolo vem em mãos postas sobre um coração aflito. Não tenho o poder de tirar dores, não falo isso em voz, mas digo, “vai passar”. E suspiras. E suspiramos. O ar que entra e o ar que sai de ti e o espaço entre ambos e o teu próprio corpo como receptáculo de vida a receber mais vida viva, a ser ele mesmo matéria em constante estado de vazio a ser preenchido e esvaziado ininterruptamente. A ausência de palavras aninha-se na garganta e formam grandes casas de pássaros que bloqueiam a entrada de luz. Há tanto canto para ser cantado, entoado, mas o medo. Ai o medo. Puxo um fiapo de ninho como quem arranca uma casca de ferida ainda por cicatrizar, ai que dor. Rumi escreveu algo muito bonito como “a ferida é por onde a luz entra em você”. O menino que carregava água na peneira, Manoel de Barros, é poeta cheio de despropósitos. Há certos vazios maiores que outros e talvez sempre estejam preenchidos pelo que não ousamos, não queremos, não nos dispusemos a olhar, pois os olhos inundam. O porquê do medo de inundações, eu não sei. Haja vista os colchetes vazios, os espaços são preenchidos pelo que não compreendemos racionalmente. É aqui, nesse espaço oco, que a luz entra. Já dizia o menino poeta, “os vazios são maiores e até infinitos”. Regresso ao teu encontro, aninha-se sobre o meu peito, abraça-me com os teus braços de criança assustada, há muito para ser cantado, ainda que o silêncio impere sobre o teu corpo em estado de completo vazio a ser preenchido e esvaziado pelo canto divino, o ar. 

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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