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Especiais Literatura

Um céu, uma mulher

e a memória

17/04/2020 11h09
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Por: Carolinne Taveira

À espera de um céu impressionista, os jasmineiros tomam o contorno da sombra do meu corpo. Quase não há luz do lado de lá, do lado de dentro. Esforço-me em vão para ler as mensagens de um livrinho de 50 páginas, servindo de acalanto aos que procuram por ele. Mas quase não há luz do lado de lá. Sentada no chão, deixo-me apreciar pelo que resta de luz. Encolhido o corpo, desenho com os olhos, os dedos frágeis, o contorno dos jasmineiros. Lembro de Barthes e a vida feita de “golpes de pequenas solidões”, com as fotografias postas em folhas em branco, a captura de um rosto que não o meu, não o teu, mas de outrem, de um ontem atravessado e marcado a dentadas. As linhas inscritas no corpo, que mudam com o tempo, que carregam o que foi, mas já não é. Um corpo que jaz sobre um chão, um tanto frio, sem tapeçaria, cheirando a lavanda, fotografando uma memória que logo deixará de ser. As janelas abertas, as figuras femininas de mãos dadas a correrem pelos labirintos da nova era, visíveis, sozinhas do lado de dentro, mas nunca solitárias. Os peitos abertos, todas elas orbitando entre e nos espaços de um novo tempo. Não tenho a quem dizer deslumbres, então anoto na lembrança, escrevo em notas de rodapé, em folhas que já não servem para mais nada, mas talvez para servirem de anotações, notas de rodapé e reciclagem. Anoto para mais tarde ler e descobrir já não ser mais aquela que escreveu no passado e que se esqueceu no passado, como um quadro pintado às pressas e deixado à mercê do olhar desleixado, não do outro, mas dele mesmo. Arregaço as mangas querendo tirar toda a roupa que me resta, para deixar um corpo nu contra um chão, um tanto frio, cheirando a lavanda. O universo que crio a partir da minha condição de mulher, as roupas, o silêncio teso, o grito, o choro, o riso, os dedos, as mãos, a forma como desfaço-me, a forma como deixo de ser suja, a forma como o corpo clama pela impossibilidade de sair ileso. Antes de querer capturar o simulacro, eu o deixo ir, deixo-o passar, eu digo “pode ir”. Não aprendi a dar golpes, mas sofro-os com as mãos atadas ao peito. Talvez para dizer, talvez para tornar-me evidente, feito a canção de Luedji Luna, feito a letra que diz, “atentar aparência, não, mas o meu peito é de mulher”. E ainda que pareça sucumbir à condição humana, é apenas descanso, é antes um estado morno letárgico, em que a sombra do corpo é contornada pelos jasmineiros, é antes a espera de um céu impressionista jamais capturado, impossível de ser capturado tal como. Descobri cedo que estou sempre perdendo momentos a espera de um próximo, fulgurante, fumegante, que cessa a cada piscar, que deixa de ser, como deixo de ser.

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Carolinne Taveira
Sobre Carolinne Taveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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