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Especiais Literatura

Encontros e desencontros:

alguns excessos só são percebidos quando nos atravessam [dentro]

30/03/2020 15h09 Atualizada há 2 meses
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Por: Carolinne Taveira

 

Todos os dias, às oito horas de la mañana a luz atravessa as cortinas de um quarto ao norte do país e atinge um pico de exaltação. Ninguém a vê. Todos os dias uma moça atravessava a rua com cuidados muitos, de quem tem medo de ser atingida por algum veículo ou por algum transeunte que não costuma prestar atenção a tudo e a todos, até o dia em que, por descuido ou pressa, atravessou a faixa no sinal vermelho, foi atingida. Todos os dias, no fim da tarde, leva seu cachorro para passear e quando estão perto de uma rua próxima à padaria da esquina, o cachorro começa a demonstrar felicidade por estar com seu dono. Foi lá que o rapaz o encontrou perdido. Todos os dias uma mulher anda por uma rua cheia de árvores, casas decoradas sem ninguém dentro, tantas casas sem ninguém dentro e houve esse dia em que prestou atenção e descobriu uma senhora na varanda, bordando sobressaltos, passarinhos na sacada, bolo e café da tarde e uma solidão aos oitenta anos. Reparou no raminho de planta crescendo no concreto. A vida que se faz onde quase não há vida. Todos os dias a costurar roupas de outrem, sem saber seus rostos, seus gostos, apenas suas medidas e formas, quando chega a devolução de uma camisa azulada, com botões brancos e um bolso do lado esquerdo. Veio junto um bilhete: “Cara Sra. Luzia, devo agradecer pelo seu trabalho. A blusa era para o meu marido, mas ele me deixou ontem. Estou devolvendo para a senhora doar ou ficar para os seus. Cordialmente, Maria.” O corpo que ocupa os espaços que já não são. Todos os dias caminha ao redor do açude sem ninguém ao seu lado, depois de uma hora e meia de caminhada, senta à margem do açude com o corpo a pender para o lado do calçadão. Tem medo de cair, mas senta-se lá para perder o medo. Houve esse dia em que uma garça pousou ao seu lado e assim ficou. Ele a viu e a achou corajosa por manter-se equilibrada em apenas uma perna. Alguém passou ao lado de ambos e os assustou. A garça voou, o homem quase caiu no açude, mas foi assim que perdeu o medo. Todos os dias, há vinte anos, acorda às cinco da manhã. Ao seu lado, sua esposa permanece dormindo. Houve um dia em que pensou em acordá-la para dizer que já ia embora para o trabalho, para dizer que ela era linda, para dizer que a amava. Não o fez. Perde-se o momento pelo medo de ser vulnerável, quando viver é sopro. A esposa foi embora na manhã seguinte, depois de ter acordado às cinco da manhã. Todos os dias atravessa a principal apressada, com leituras atrasadas e frases por dizer. Certo dia, atravessou a principal lentamente, quando uma pessoa apressada esbarrou em seu corpo. Pediu desculpas, ela disse “está tudo bem”. As mãos se tocaram e se deixaram para quase nunca mais. Dois anos depois encontraram-se em uma cidade do interior do país, enquanto observavam a chuva passar e perceberam-se desconhecidos-conhecidos. Conversaram, riram. Hoje são casados e moram em uma cidade no interior de Minas e gostam de cozinhar juntos, enquanto riem um do outro, enquanto dançam na cozinha. Todos os dias é acordada pelo menino da última casa da rua. Ele passa dando bom dia para as plantas no caminho da escola. Um dia, seu pai o levou para a aula, pois o menino havia sido humilhado por alguns alunos e professores, pois gostava de dançar e desenhar flores e plantas em seu caderno. Nesse dia, não passou dando bom dia de maneira alegre, mas dizia baixinho “olá, tenham um bom dia; olá, bom dia; bom dia para vocês”. O pai retirou-o da escola, prometendo a chegada de uma intimação judicial em breve para a instituição. No caminho de volta, enquanto olhava para o filho, dizia para as plantas “olá, espero que estejam tendo um ótimo dia; olá, tenham um dia lindo”. Os dois seguiram de mãos dadas, a despejarem beleza onde já havia luz. Todos os dias escreve uma frase no caderninho para não esquecer de. Certo dia o perdeu. A sorte é que seu nome estava anotado na contracapa, juntamente com o número de telefone. Alguém o encontrou e, por curiosidade, leu todas frases. Ligou para a moça e disse “o dia de hoje amanheceu desamanhecendo azul claro amarelo cinza? Mas amanheceu”. Encontraram-se e tornaram-se amigos que escrevem juntos. Faz quinze anos. Todos os dias liga para a filha e diz que sente saudades. Nesse dia, ligou três vezes, na quarta, a moça atendeu o telefone e disse “eu também sinto saudades, mãe, mas preciso desligar porque tenho algumas coisas para fazer”. A mãe desligou o telefone e continuou tricotando uma camisa de lã, que ia enviar para a filha. Alguns excessos são só percebidos quando nos atingem dentro. A mãe não ligou no dia seguinte, estava ocupada. A moça sentiu saudades. Todos os dias chega em casa por volta das nove horas da noite, depois de pegar ônibus, metrô e uma boa caminhada até sua casa. Ao abrir a porta, sua gata está a sua espera. Cansada, deixa as coisas em cima da mesa da sala, acaricia Margarida e vai para a varanda. Deita-se na rede e pensa se há alguém que também está pensando em alguém como ela. Em outro bairro, uma pessoa chega em casa às nove e dez da noite. Liga o som, enquanto procura o que pode fazer para comer. Sentada à mesa, pensa se há alguém que também está pensando em alguém como ela. Nunca se encontraram. Todos os dias escreve cartas que não envia para ninguém. Houve esse dia que se dirigiu a um nome aleatório, com endereço aleatório e enviou uma carta. Duas semanas depois, a carta retornou. Não existia tal pessoa, em tal endereço. Decidiu então sair para comprar sorvete e ir à praça. Poucos minutos depois, alguém sentou no banco à sua frente, tirou um caderninho da bolsa e começou a escrever. Ainda que com receio, dirigiu-se à pessoa, começaram a conversar e marcaram de sair. Ninguém sabe o que aconteceu. [O que aconteceu?]. Todos os dias cuida das plantas. Limpa-lhes as folhas, aduba quando necessário, coloca-lhes água. Acompanhando o crescimento delas, houve esse dia que conseguiu observar o desabrochar de uma flor. Ninguém mais viu. Nos outros dias, a flor começou a murchar. Dura pouco tempo a vida. É preciso estar atenta, percebeu.

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Carolinne Taveira
Sobre o Carolinne Taveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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