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Jornal de Fagundes
Literatura

As palavras

que deixamos pelo chão

Carolinne Taveira

Carolinne TaveiraMestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).

30/01/2020 15h45
Por: Carolinne Taveira
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Descabelada as horas do meu dia. Sem graça. Já não canto como antigamente, você vê. Ressono no calor de uns trocados sorrisos e as palavras que me ficam, deixam logo de ser. As horas são dúbias e sigo cheia de dúvidas. Digo a mim que preciso me debruçar na alça do céu, colorido, nunca meu, nunca nosso. A ilusão de possuir. A necessidade de pertencer. O sobressalto de deixar ir. Se muito me atrevo, costurando o meu próprio tempo, deambulo pelas ruas achando de ter me encontrado e cuidando de me fingir pertencida. O ciclo vencido numa luta de um só integrante. Como quem se deixa vencer e guarda consigo o sabor de uma derrota que é só sua, aceitando a condição. O fatigar dos dias descabelados, a urgência do verbo. Amar. Carecendo de ser visto, olho-no-olho, para sentir que existe. Porque talvez não exista nos espaços do meu corpo, mas no que restou de mim. E gesticulo curtos silêncios. A asa de um pássaro torto que me guia a direção de um destino que não o meu. Lembrete de curso, abre aquele caderninho na tua página preferida, é ali que reside. O amor está além, mas tampouco sei em que direção o amor está indo. Nas tuas palavras. Galeano e o rosto contra o vento e ele mesmo o vento que o bate. A face da palavra que ocultei. No retrato dos dias, o meu rosto contra o sol e o sol a lacrimejar-me os olhos. Beleza essa de encontrar vestígios e agarrar-se na condição do despercebido e agora descoberto. Desnudar-se dentro e por muito deixar-se nas palavras e nos gestos, existindo sem carecer de existir, mas se fazendo existir. O que resta dos dias. Já não canto como antigamente, vês. Saio à sacada e seco os olhos de ontem. A palavra que não dorme nos meus pensamentos e me acorda cedo, rega-me as plantas, conta-me dos dias e das horas e de como é existir. O que resta dos dias vencidos. Confetes, serpentina, o Amor. A declamar versos no vento, a ser ele mesmo o vento, descabelado. E vamos torcer: cheio de graça, nunca pertencido.

 

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