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Jornal de Fagundes
Literatura

Um rosto

diante da chuva

Carolinne Taveira

Carolinne TaveiraMestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).

23/01/2020 14h43
Por: Carolinne Taveira
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A chuva lava a madrugada do corpo. E é tarde a hora. E não há ninguém na rua; não há ninguém aqui; não há. Defronte ao espelho, um rosto. {O meu?}. Um rosto antes lavado pela chuva. Um rosto que tem o privilégio de descansar do dia. A hora é já tarde e não quero o reflexo, quero antes a certeza do meu olhar atravessando o vidro. Adentrando-o. As marcas da pele, a idade. Os olhos pesam tanto assim? No compasso, num ritmo frenético de pensamentos, eu. E as mãos massageando esses mesmos olhos; os dedos acalmando-os, como quem pede “por favor, descansa”. Não enxergo um palmo à frente sem os óculos. O claro borrão de um corpo diante de mim e sou eu mesmo esse corpo borrado, lavado pela chuva, a madrugada. E permaneço assim, enxergando borrões. Sei que há um rosto à minha frente e que é meu esse rosto que desconheço, mas tudo o que vejo é deslocamento. A elevação do olhar quando de dentro observo e eu jamais corro os olhos apressado. Eu os levanto calmo, sem querer perder um só detalhe, mas sou incapaz de enxergar detalhes sem a ajuda de meus óculos. E os percebo como sendo uma extensão de mim: ajustável, removível, perdido e quebrável. Outrora desamanheci e vivo num constante desejo de me acordar. Aprendi a rezar de olhos abertos, porque se o que me é apresentado é um grande borrão, nada me salta, exceto cores. Daí então enxergar Deus nos cantos deslocados e nos compassos desajustados, de imagens inconcebíveis das minhas retinas. Numa angústia inútil, num esforço de enxergar o que não consigo, desisto de olhar e passo a perceber; absorvo as formas, como que lembranças costuradas a fio. Se muito penso, levo-me à casa de mainha e quase enxergo o desenho do seu corpo sentando na varanda de casa. Tudo sentia. Cansado, ponho os óculos. O rosto diante de mim, que acredito ser eu.

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