JF
Jornal de Fagundes
Literatura

O tempo

O corpo do tempo

Carolinne Taveira

Carolinne TaveiraMestranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - Ingresso 2019. Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade Estadual da Paraíba (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).

03/01/2020 13h45Atualizado há 3 semanas
Por: Carolinne Taveira
537

Retira os sapatos dos pés. E cansado, caminha pelas ruas esburacadas desta cidade. Com cuidado, arranja a roupa harmonicamente posta, cautelosamente escolhida. Desfila por entre as casas de 1920, com tetos carcomidos por feras invisíveis quase. Apenas caminha. Vai lento e segue. Segue sentindo o teu corpo andando pelas ruas desta cidade. Ao Norte, meninos correm pelos caminhos de palafitas, num sol de janeiro, sem medo algum do tempo que irá lhes arrastar pela saia de cor azul. Estão também descalços. E correm por entre palafitas, sustentadas por estacas também de madeira e o rio é bondoso com a madeira e também com a pele dos meninos, que correm descalços, sem medo algum do tempo. Caminhando, verás que na parte central da cidade, encontrarás árvores. Três. Achega-te, elas vão te dizer. Achega-te e descansa que estás velho e descalço. Admira-as enquanto teus pés percorrem vestígios de sombra, esconderijo de formigas trabalhadoras que carregam o mundo e nunca descansam de sentir. Uma hora, teus pés sentirão necessidade de não mais estarem onde estão e então terás que caminhar muito e mais. Não escuta a voz dos bêbados, eles têm muito a dizer e tens pressa e o tempo, o tempo hora é sopro, hora é a madeira que sustenta as palafitas nas quais os meninos do Norte correm despreocupados. Não te preocupa com o que irás encontrar pelo caminho. Se teus pés ficarão feridos ou sujos. Já estão feridos e sujos. Por hora, caminha, menino velho. Chega até o rio de onde vieste e fica-te por lá. E descansa os teus pés. E lava-os com sabão e água. E sente. Permita que a água corra entre os vincos da tua pele grossa, ferida, mas branda e só. Do outro lado do rio encontrarás três homens esperando por peixes que nunca irão capturar. Enquanto esperam sentados, não sentem a terra do rio, a água do rio, a força do rio, o rio do rio. Os peixes afastam-se deles, sabem da morte e por isso escondem-se entre os ramos-raízes de uma vitória-régia que se sustenta imóvel, enquanto os peixes que iam ser mortos refugiam-se em seus ramos-raízes e dançam comemorando uma morte adiada, uma morte sabida e adiada. E respira quieta, enquanto os três homens deixam de esperar e somem de vista, sem sentirem a terra do rio, a água do rio, a força do rio, o rio do rio. E tu e as tuas costas curvadas sentem-no, com os pés descalços e uma água que nunca permanece e é sempre outra. Em dada hora, as luas de saturno abrandam o coração do tempo e vez ou outra, os pés deixam de doer e a carne do teu corpo deixa de doer e a pele que se refaz deixa de se refazer, até que um dia tu retornes ao teu lugar e com isso, o tempo, a corroer as tuas vestes cautelosamente postas e os teus pés despidos, deixe de ser tempo.

Até lá, caminha, menino velho, caminha.

 

4comentários
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários
Fagundes - PB
Atualizado às 14h24
32°
Muitas nuvens Máxima: 32° - Mínima: 21°
33°

Sensação

17 km/h

Vento

46%

Umidade

Fonte: Climatempo
JF
JF
Municípios
JF
Últimas notícias
JF
Mais lidas
JF
JF